SINOPSE:
Historiadora das teorias e das formas urbanas e arquitetônicas na Universidade de Paris
VIII, a autora reconstitui a concepção, ao longo do tempo, do que vem a ser patrimônio
histórico. Isso inclui um mergulho no conceito de monumento histórico e nas diferenças
entre conservação e restauração. Verifica também como a indústria cultural convive com
o patrimônio e como ele se relaciona com o turismo. (Co-edição: Estação Liberdade)
ORELHAS:
A alegoria do patrimônio reconhece a urgência de uma mudança de orientação que possa
reverter o desenrolar da indiscriminada e acelerada especulação com os bens
patrimoniais. A abordagem das relações estabelecidas com o patrimônio propõe uma
reflexão sobre o futuro das sociedades e focaliza os bens culturais representados pela
arquitetura e pelas cidades, discutindo e defendendo uma antropologia da apropriação do
espaço no tempo, e seu futuro. O olhar sobre as relações com os artefatos construídos
traça uma linha alegórica e evolutiva, dos tempos medievais até a segunda metade do
século XX, que clarifica um projeto iniciado com a representatividade dos monumentos -
a princípio chamados de antigüidades - e que prossegue estimulando o sentimento de
patrimônio e, finalmente, a noção de patrimônio histórico. Esta evolução reconhece um
primeiro estágio de ligação afetiva com as obras e um segundo momento em que a
distância histórica permite geral uma abordagem cuidadosa, criteriosa e deliberada de
valorização do patrimônio. É através da experiência no decorrer do tempo que uma
linhagem de intelectuais, eruditos e colecionadores, amantes da arte, antiquários,
ilustrados, historiadores da arte e arquitetos - desde Petrarca, Alberti, Quatremère de
Quincy, Viollet-le-Duc, Victor Hugo, Ruskin, Alois Riegel, Camillo Sitte, Gustavo
Giovannoni, André Malraux - investigam o tema e ensaiam o trabalho sobre os bens
patrimoniais. Esta evolução parece encontrar, no entanto, seu limite no tempo atual,
quando se observa que as ações sobre o que se considera patrimônio tendem a precipitar
uma falsa consciência de seu valor. A forma indiscriminada com que, desde os inícios da
modernidade racionalista, a natureza da técnica é transformada, passando a mediatizar a
relação dos homens com as coisas, além do fato de já não se construírem monumentos, faz
que a cultura do patrimônio se afaste cada vez mais do poder de simbolização, opondo-se
assim à continuidade de uma competência antropológica de edificar. Esta competência,
pela qual os arquitetos têm relações diretas com os terrenos, as águas, os climas, com
os ventos, os vegetais e as estações, conhecendo o comportamento dos materiais e as
regras de sua utilização, rejeita as relações intermediadas com o ambiente, assim como
envolve memória ancestral, entendimento e construção da teoria enquanto reflexão sobre
a prática e a experiência. A transformação do entendimento do patrimônio, nas práticas
atuais, como produto de consumo e espetáculo, banaliza a dimensão fundamental que o
inaugura. Esquece, pela forma indiscriminada com que se metamorfoseia seu valor de uso
em valor econômico, que as decisões desta natureza implicam discutir o destino de obras
arquitetônicas e, sobretudo, o futuro das cidades, com base no reconhecimento de seu
valor histórico e estético. Diante da exaustividade simbólica à qual se atribui a
interpretação de "síndrome narcisista" - originada na desestabilização da identidade
ocasionada pelo desenraizamento do tempo orgânico e do espaço sensorial, geradora de
uma forma indiscriminada de culto ao patrimônio, que elimina diferenças e
heterogeneidades - a opção por um destino antropológico pode reconduzir os objetivos de
conservação do patrimônio à conservação da capacidade de lhe dar continuidade e
substituí-lo. Isso implica liberdade como única forma de relação com o tempo e o
espaço, exigindo, cada vez mais, pedagogias especiais que, além do bom senso, se
inscrevam em tradições urbanas e comportamentos patrimoniais. Maria Isabel Villac
Quarta capa
Por que o patrimônio histórico, arquitetônico e urbano conquistou atualmente um público
mundial? Por que seu conhecimento, conservação e restauração se tornaram um desafio
para os Estados do mundo inteiro? Nem seu valor cognitivo e artístico, nem o fato de
constituir uma atração em nossa sociedade de lazer o explicam s
SUMÁRIO:
Introdução - MONUMENTO E MONUMENTO HISTÓRICO
Capítulo I - OS HUMANISMOS E O MONUMENTO ANTIGO
- Arte grega clássica e humanidades antigas
- Restos antigos e humanitas medieval
- A fase "antigüizante" do Quattrocento
Capítulo II - A ÉPOCA DOS ANTIQUÁRIOS - MONUMENTOS REAIS E MONUMENTOS FIGURADOS
- Antigüidades nacionais
- Gótico
- Advento da imagem
- Iluminismo
- Conservação real e conservação iconográfica
Capítulo III - A REVOLUÇÃO FRANCESA
- Tombamento do patrimônio
- Vandalismo e conservação: interpretações e efeitos secundários
- Valores
Capítulo IV - A CONSAGRAÇÃO DO MONUMENTO HISTÓRICO (1820-1960)
- O conceito de monumento histórico em si mesmo
- Valor cognitivo e valor artístico
- Preparação romântica: o pitoresco, o abandono e o culto da arte
- Revolução Industrial: a fronteira do irremediável
- O valor de reverência
- Práticas: legislação e restauração
- Origem da legislação francesa referente aos monumentos históricos
- A restauração como disciplina
- As aporias da restauração: Ruskin ou Viollet-le-Duc
- A França e a Inglaterra
- Sínteses
- Para além de Ruskin e de viollet-le-Duc, Camillo Boito
- Alois Riegl: uma contribuição maior
Capítulo V - A INVENÇÃO DO PATRIMÔNIO URBANO
- A figura memorial
- A figura histórica: papel propedêutico
- A figura histórica: papel museal
- A figura historial
Capítulo VI - O PATRIMÔNIO HISTÓRICO NA ERA DA INDÚSTRIA CULTURAL
- De objeto de culto a indústria
- Valorização
- Integração na vida contemporânea
- Efeitos perversos
- Conservação estratégica
Capítulo VII - A COMPETÊNCIA DE EDIFICAR
- O espelho do patrimônio: um comportamento narcisista
- Os verdadeiros ensejos da síndrome patrimonial
- Sair do narcisismo: o espelho patrimonial reclama
Anexo
Referências Bibliográficas
Índice Onomástico
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