SINOPSE:
Este livro aborda a história dos povos indígenas situados nas cabeceiras do Purús e
seus principais afluentes, na divisória de águas entre este rio e o rio Madre de Dios-
Madeira, em territórios do Acre brasileiro e do departamento peruano vizinho. O autor
explora, basicamente, três tópicos: a desagregação, a fragmentação dos grupos Pano,
suas fronteiras indefinidas com o entorno Arawak, Tacana ou Haránkbut; as alternativas
criadas pelo fluxo e refluxo brusco da ocupação branca da região; e o binômio
mito/história.
ORELHAS:
Yaminawa, neste livro, denota em primeira acepção a coletividade que ocupa a Terra
Indígena Cabeceiras do Rio Acre e outras aldeias aparentadas no rio Iaco. É um termo em
certo sentido jurídico: existe em função das necessidades de classificação dos órgãos
indigenistas e de direitos territoriais recentemente reconhecidos. Foi aplicado pela
própria Funai àquelas comunidades, que até então não usavam um nome comum mas uma
pluralidade de etnônimos. Acontece, porém, que os índios não só aceitaram um nome
estranho como também, desde então, aplicam-no com generosidade a outros grupos
próximos - talvez não tão dispostos a aceitá-lo.
Na época em que o autor esteve entre os eles, os Yaminawa atravessavam uma fase
problemática; índios aculturados, que haviam abandonado todas suas tradições, e
anômicos. Freqüentemente expulsos da categoria dos índios autênticos, os Yaminawa são,
porém, autênticos sem substantivo: despojados, destrutivos, humoristas, mal-afamados e
descontentes de si mesmos, não resgatam nossas utopias nem nos dão satisfações morais.
A primeira parte do livro está voltada à organização social e se dedica a uma
etnografia do Yaminawa da Terra Indígena Cabeceiras do Rio Acre. Sua função essencial é
definir o sujeito da história, sua estrutura interna e as fronteiras do grupo: são
apresentados os protagonistas e o espaço em que se movem, sua economia e seu cotidiano,
as complexidades do sistema de parentesco Yaminawa e, finalmente, as festas, a chefia e
a instituição da Koshuitia, a pajelança.
A segunda parte é uma tentativa de "crônica" Yaminawa. O autor usa o termo crônica
deliberadamente, resguardando o termo História para uma discussão conceitual que deve
aparecer na terceira parte. Aqui, busca-se estabelecer diferenças concretas em um
processo que é muitas vezes apresentado como um fluxo único - de entropia cultural ou
de "amansamento do branco", dependendo do ponto de vista - ou dividido em grandes
períodos "ideológicos" - "vida tradicional", "perseguições", "cativeiro" e "libertação".
Este livro é uma tentativa de fazer etno-história em vários sentidos da palavra. É a
história de um pequeno grupo humano, escrita com base em uma documentação secundária e
pouco expressiva, e nos relatos locais; mas buscou-se também a visão que os seus
herdeiros têm dessa história, e ainda o papel que essa visão exerce em sua vida social -
um ser, um ver e um fazer entretecidos. Embora em teoria não mais se levantem
barreiras sérias entre estrutura e história, falta ainda uma rotina descritiva que não
isole uma e outra. É esse o objetivo central deste livro.
Quarta Capa
Oficializada pela FUNAI em 1988, a comunidade Yaminawa, da Terra Indígena Cabeceiras do
Rio Acre, no município de Assis Brasil, constitui a principal referência deste livro.
Trata-se de um estudo situado na confluência da História com a Antropologia, cujo
objetivo é expor uma rotina descritiva que não isole história e estrutura. É a história
de um pequeno grupo humano, que incorpora a visão de seus herdeiros e o seu papel na
vida social - um ser, um ver e um fazer entretecidos.
Na contracorrente de estudos bem delimitados, com estrutura canônica e conclusões bem
assentadas, o conteúdo dessa obra se aproxima de um conjunto de obstinadas variações
sobre os mesmo temas, que reproduz, em certa medida, o seu próprio processo de
elaboração. Sob tal foco, o autor escreve uma outra história dos Yaminawa, que busca
desvendar elementos cruciais da vida desses indígenas do grupo etnolingüísticos Pano.
Sobre o Autor
OSCAR CALAVIA SÁEZ é doutor em Antropologia Social pela USP e obteve o pós-doutorado no
Centre National de la Recherche Scientifique, CNRS, França. É membro do Conselho de
Administração da Societé des Americanistes; pesquisador associado da Equipe de Pesquisa
em Etnologia Ameríndia do CNRS; membro do Conselh
SUMÁRIO:
Prelimares
Os primórdios
A etno-história
Viagens de pesquisa
Os frutos do campo
Nota intersubjetiva
A Panologia
O nome
Sumário
Sobre a grafia
Parte 1
Yaminawa hoje
1 A aldeia Yaminawa
Gentes e lugares
Trabalhos e dias
Oscar Calavia Sáez
2 Os sistemas de parentesco Yaminawa
Carnes e palavras
Ciclos e jogos
O dravidiano
Vocativos e nomes
O planeta dos cunhados
Casamento
Noko Kaio
Reflexões
3 A sociedade em ato
As festas
A expansão do chefe
A reserva do xamã
Parte 2
Uma crônica Yaminawa
4 Êxodos e cativeiros
Primeiros contatos
Os patrões
Os indigenistas
As guerras civis
A grande mudança
5 Memórias Yaminawa
O relato de Clementino
O relato de Correia
Os lamentos
Pessimismo sentimental
6 O boom elástico
Trompe l´oeil
Os escravos da selva
A guerra fragmentar
A confusão étnica
Peruanos e brasileiros
Nomina sunt munina
Um olhar retrospectivo
7 A idade de ferro
Origem
A terceira margem do rio
Ligações perigosas
8 O soberano inexistente
Fábulas amazônicas
Os Incas
Índice de Incas
O sovina e os animais
Desordem narrativa, desordem social
O Inca como afim impossível
Um mundo de cunhados
Reforma da identidade, reinvenção da cultura
Epílogo: sobre a antiguidade dos modelos
Parte 3
O tempo dos Yaminawa
9 Mitologia
Histórias dos antigos
A colheita
Mitologia
Anticlassificações
10 Olhos limpos, peles pintadas
Metamorfoses
Trabalho corporal
O homem só
11 Elementos de cosmologia
Yura, yuxi, nawa
Distâncias paradoxais
Mapas do universo
Os mortos
O espaço-sujeito
12 O tempo dos Yaminawa
As conseqüências da vida breve
Temporalidade
Mito, história
Mito, invenção
Referências bibliográficas
Anexo
Nokoshidipawó askawadé
Umas palavras prévias
Índice remissivo
Índice onomástico
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